Adventos como a world wide web revolucionaram as relações interpessoais. Hoje, os meios eletrônicos nos possibilitam formas de interação que, anos atrás, jamais imaginaríamos possíveis. Criou-se uma nova lógica de raciocínio, romperam-se as barreiras de tempo e espaço. Números ilustrativos da presença da web no cotidiano das pessoas podem ser conferidos aqui.
O mundo dos computadores fez surgir uma nova cultura. Esta nova cultura tem nome: cibercultura. A palavra foi cunhada para designar um espaço de costumes e hábitos próprios, que surgem quando usamos o computador para o trabalho, o lazer e a comunicação. Porém, apesar do esforço dos estudiosos para condensar tudo isso numa única idéia, a cibercultura remete a infinitas possibilidades. É difícil ter total noção do universo criado por essa nova maneira de pensar.
Sendo assim, não haveria como discorrer sobre o tema num único texto. Exatamente por isso, nossa leitura foi dividida em duas partes. A primeira seção, Cibercultura na música, mostra exemplos de como bandas e artistas referem-se à cibercultura em suas composições. Já Música na cibercultura traz aplicações práticas de como o universo virtual altera os conceitos do fazer música.
Cibercultura na música
A música eletrônica é a que melhor se encaixa no contexto da cibercultura. Sua sonoridade jamais poderia ser reproduzida sem o auxílio de computadores. Efeitos sintéticos, colagens e distorções criam melodias num espaço cibernético, intangível. Desta forma, nada mais natural para os DJs do que retratar esta realidade em suas composições.
Referênci
as à internet e à tecnologia são constantes nas letras do duo francês Daft Punk. Digital Love, do álbum Discovery (2001), conta o sonho de um rapaz com sua amada – não fosse a distância, suprida pela rede, os dois poderiam se abraçar. Já o single Technologic (2005) apresenta uma voz robótica a enumerar ações típicas de usuários de computador (carregue, plugue, atualize, formate). Algo semelhante acontece em Slash Dot, do DJ inglês Fatboy Slim: as únicas palavras proferidas são slash, dot, dash (barra, ponto, traço), comuns em endereços eletrônicos.
Os brasileiros do Golden Shower se serviram de um fenômeno da internet para fazer graça. No clipe de Total Control (vídeo abaixo), em meio à estética oitentista há uma frase curiosa: all your base are belong to us. Ela apareceu em 1989, na versão americana do jogo Zero Wing, mas só ficou famosa com a internet, há cerca de cinco anos. A rigor, all your base are belong to us não existe na língua inglesa. Trata-se de uma tradução mal-feita que ganhou as graças dos internautas.
Música na cibercultura
A indústria fonográfica sofreu um revés. Com músicas e vídeos distribuidos pela internet, a divulgação de bandas independentes equiparou-se às das grandes gravadoras. Mas isto vai além: é possível não só ter acesso fácil ao material de um artista, mas interagir com ele diretamente. Cantores mantêm blogs, ouvem a opinião dos fãs e atendem a pedidos, mesmo estando do outro lado do mundo.
É o caso da americana Terra Naomi. A cantora possui página n
o MySpace.com e espalha vídeos caseiros de suas músicas no YouTube. Mais que apresentar seu trabalho sem a necessidade de agentes e jabá, ela criou uma rede internacional de pessoas interessadas em vê-la e ouvi-la. Tanto que, recentemente, Terra protagonizou uma “turnê mundial” sem sair de seu apartamento. Toda semana, ela podia ser vista, ao vivo, via webcam.
Abaixo, você confere o vídeo para Say It’s Possible, o maior hit de Terra Naomi entre os internautas. O sucesso foi tanto que muitos fãs fizeram versões próprias para a música (destaque para a cover de Meghan Julius). Tamanha repercussão levou Terra a disponibilizar um vídeo ensinando como tocar a canção.
E o sucesso via web não se restringe aos artistas de carne e osso. Em sites como o CreateBands, qualquer internauta pode selecionar músicos virtuais e montar uma banda para todo mundo ver! Escolhe-se desde instrumentos até cenário e efeitos de luzes do show. As músicas são montadas com base em melodias pré-definidas, ou então controladas por teclado. Fácil, rápido e de grande abrangência.
No mundo virtual é assim. Não é preciso muita estrutura para atingir um grande público. A comunicação é feita de todos para todos, sem intermediários. É isso que caracteriza o universo da cibercultura: um espaço democrático, paralelo às convenções do “mundo real”, mas que nos atinge de igual maneira. Estar inserido no contexto cibercultural é ampliar os horizontes para uma nova realidade.


